- Dentro da tempestade todo filósofo zomba!
[visto que não sabe dançar]
Nenhum
filósofo sabe dançar! É verdade! Ao filósofo nada lhe é mais próprio do que a
zombaria. Nietzsche, pobre coitado, creio que não quisera, de fato, um Deus que
dançasse... Queria era que ele próprio pudesse dançar com Lou Salomé! (mas por
essa vocês não esperavam) Porque pouco importa se há um Deus que dança ou se as
pessoas comuns dançam também! O filósofo, em geral, só trata com gozo da
zombaria, somente isso lhe causa
tremendas farturas no ego! Ele não
ama versos e nem coisas do tipo; ao filósofo só resta aquilo que só ele viu e que ninguém mais poderia
ver: a tragédia do real! Sim, a tragédia estende as mãos às alturas e
busca cada um daqueles espíritos que tenta vos escapar. Cito como exemplo as
fardas que eles (digo nós, no caso) trocamos diariamente! Os endereços, as faces
e os gestos! Todo filósofo, em última análise, é um moribundo! Todo filósofo,
aliás, já morreu e vaga em seu silêncio diário sem ter sequer a coragem de querer
dar-se conta de tal ocorrido. Mas eu não, meus amigos! Eu bem sei que o destino
é somente esse! E nem rogo pelas migalhas das orações alheias! Olha, eu escuto
Deleuze falando que é típico mesmo do filósofo o magnífico e intocável Conceito! Mas não é! E de jeito nenhum,
camaradas! (a propósito, é quase anal, sabia, o prazer que a filosofia tem pelo
Conceito! Mas que horror, gente! Que horror!) esquecem-se, pois, que típico do
espírito filosófico é somente a tempestade e nada mais! O Conceito é secundário
perto do fervor espiritual do pensar. Anotem aí: Não se escolhe entrar na Odisseia!
Não se escolhe ouvir os cantos das sereias (aliás, pobre Ulisses, deveria ter
ouvido enquanto pôde!)... Mas talvez ele soubesse que os cantos não são e nunca
serão pra nós! Nem tampouco os campos verdes nos trazem nada, nem as primaveras
e os lugares entupidos de almas belas ou estreitas! Nada! Nada pode colorir a
alma do filósofo enfadonho (mas como se todos já não o soubessem, né verdade?).
Mas
ele, ao contrário do que se possa concluir, né triste mesmo não! (defina
triste! Dirão meus colegas! Posso ouvi-los daqui...) Ele é, na verdade, um
tanto marrento! É um lixo só, mas se não lamenta! Agradar-me-ia dizer que o filósofo
vinga-se é no alto riso que esboça aos quatro ventos por aí! Ninguém, pelo menos em sã consciência, ama um filósofo e ele sabe disso! Desse
modo, ele fala, fala e torna a falar mais alto até que as pessoas saiam de
perto e o chamem de louco! Mas se todo filósofo é louco, isso eu não sei, mas
que rir é típico dos loucos e igualmente típico do filósofo no auge de seu determinar
ontológico, isso eu sei e posso dizer aos senhores que sim: nesse caso, ambos,
me perdoem, são iguais! (pior pros loucos, aliás!) Mas o que eu quero dizer
mesmo é que nenhum filósofo dança e sequer tem vontade de dançar, a não ser
dentro da tempestade... que é o lugar onde ele enxerga de perto as coisas como
elas são: estúpidas, tudo verdadeiramente estúpido! Dos lírios ao sepulcro: Tudo! E como não haveríamos de rir de uma
coisa dessas? A vida, em sua mais aberta fossa de asneiras seculares, me diz que
quanto mais o filósofo pensar que sua sanidade depende de seus trajes de bom cidadão, mais o véu da doença que
levou todos os nossos ancestrais estará em nosso encalço dia pós dia! Escutem o
uivado que chegou com a noite! Escutem! Desde menino que ele me acompanha! Às
vezes penso que Zaratustra andou errado, sabia? Demorara tanto pra subir a
montanha e em tão pouco tempo colocou-se a descê-la! Como que descer, rapaz?
Volte pra lá cima! Que desfeita consigo mesmo, ora mais! Nossa idade é somente
a idade do camelo e você sabe disso,
meu caro! Volte pra cima que em pouco te acompanho! Ai de mim se todo esse
escárnio um dia se tornasse luz! Se todos esses conceitos se tornassem
presenças – já pensou? Presenças! (há
quem diga que o ser-aí é chamado
também de presença, né verdade? Mas como?! Se nós filósofos detestamos a presença?) perdoe-me novamente
aqui! Preciso de uma pausa urgente pruma gargalhada depois dessa confissão!
Amanhã cedo talvez vocês me matem por contar nossos segredos por aqui, pensam
que não sei? Nem ligo. Ei! Vocês se lembram que Sócrates supostamente não entendera por que choravam perante seu
julgamento? Não? Mas como não, amigos? vocês sabem, só não querem pensar sobre
isso! Todos aqui sabemos que Sócrates zombara da morte, zombara até da porra da
cicuta, quicá dos que o condenaram! Jesus também zombara (meu reino não é desse mundo, lembra? ou seja: “ lero, lero, isso nem
me causa danos!” Disseram os dois - frente à morte... ambos também não curtiam
a presença...).
Em
suma, troquem as roupas, as bebidas, as casas, mas lembrem-se de mim! Lembre quando
o véu cortante e inteligível da condição humana recair sobre suas pobres e imundas
cabeças na madrugada! Mas nem dói em nenhum de nós, pois sabemos pra que
viemos! Viemos pra cá já sabendo o que nos aguardava: o amargo diário e o diário
disfarce de pensar que escaparemos ilesos, um dia, se Deus q uiser, de todo esse lixo que nos rodeia
e nos suja, só que esse mesmo lixo não se cansa JAMAIS de pedir mais cuspes na
cara porque sabe que é isso nós somos: máquinas de cuspir asneiras e desaforos
(
Ecce Homo, Cavalheiros,
Ecce Homo!) nada mais que isso: um sonho mal vivido e
sem escrúpulos nenhum! Se a vida do filósofo fosse um livro, deveria ter a seguinte
dedicatória: À tempestade! Pois somente
ela aceitou dançar comigo...